terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O MEU poema favorito

Cântico Negro

"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí.

José Régio

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

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Decidi subtrair-te do meu pensamento. Sim, é verdade. Decidi subtrair-te do meu pensamento. No princípio nunca pensei que isto pudesse acontecer. Não calculava, digo eu. Era como se pensássemos que algum dia a luz das trevas pudesse iluminar o sol. Sempre percebi que era impossível. Mas agora... Parece que estou confuso. O silêncio exagerado gera muito barulho. Sim, é isso. O que houve entre nós foi... Como hei-de dizer? Assim um tanto... avinagrado. Não. Não é essa. Não é essa a palavra. Whatever. O que eu quero dizer é que me deste demasiado amor. Eu aceitei. Mas não gostei. Não gostei. Mas afinal o que é que é o amor? É algo que existe entre Deus e o Diabo? O Diabo e o Homem? Ou entre Deus e Homem? Sinceramente. Acho que penso que não sei pensar no que o amor é verdadeiramente. Não consigo. Não consigo decifrar o amor. Sei. Acho que sei um exemplo. Sobre o amor. Quando os homens estão reunidos nos... Ai que se me escapa. Qual é mesmo a palavra? Ah... Parlamento. Isso mesmo, parlamento. Quando os homens estão reunidos nos parlamentos. Aí sim. Aí há amor. Sem dúvida. Bom, talvez não. Quando o grito do ódio fala mais alto, o silêncio aumenta. Porquê? O ódio não tem voto na matéria. Apenas a loucura foi condenada a acompanhar o amor, até ao fim dos seus infinitos dias, por lhe ter dado um soco bastante furioso no olho. Só pode ter sido influência do ódio. O ódio tenta incutir na cabeça da loucura maldades para incutir na cabeça do amor. Mas o amor é único. Mesmo que ele quisesse fazer mal a alguém não podia, porque ele é amor. Pois. Agora pensando bem, já não posso subtrair ninguém do meu pensamento . Não? Posso sim. A minha loucura disse-me que o ódio manda exigir mais do teu amor. Mas já vi que é uma perda de tempo. Uma perda de tempo que fica para a história, que fica para a memória de quem percebe barbaridades escritas por mim. Eu sou o escritor. Mas não sou um escritor. Vou subtrair uma galáxia, vou subtrair um planeta, vou subtrair um continente e um país e uma capital e um concelho. No fim, só eu. Sem conselhos de ninguém, sem capitalistas, sem os relatórios das somas das minhas subtracções divididas pelas pessoas que amo que é equivalente a zero. Zero és tu. Tu não és nada para mim, portanto és zero. E zero és, percebes? Porque razão o poeta escreve amor quando sabe que está sujeito a ser criticado subtilmente, ou intitulado de , maricas? O poeta não tem medo de escrever isso porque tem a loucura. O ódio é escrito pelo poeta para as pessoas deixarem de ser escravas e passarem a ser assassinos suicidas. O poeta tem poder. O poeta tem poder nas mãos, nos dedos e nas articulações dos dedos. Tem poder ao passar esse mesmo poder para a caneta, para a lapiseira e para o lápis que irão riscar o papel. O papel não tem culpa. Mas é utilizado para nos passar mensagens. Ou apenas para se dizer que se usa papel. O poeta tem poder para passar poder ao poder. Poder é posse. Truques mágicos e fantásticos não existem. Poder é posse. E eu possuo-te. Possuo-te mas vou subtrair-te. Já não gostas de mim pois não? Pois agora começo a gostar mais de ti. Começo a acreditar que podemos ser felizes. Sem divisões, somas e até mesmo subtracções. Vamos enriquecer o amor. Manter a loucura condenada no seu posto, e subtrair dela o ódio tentador e penetrante. Eu mais tu, dá eu e tu, que é sinónimo de nós. Nós menos tu, dou eu. Dou eu, mas eu preciso de ti. Preciso de ti, do teu corpo e do teu físico. Preciso que me estimules, preciso de dormir. Gosto de dormir contigo sabias? Gosto do acto. Depois vem a chuva. A cama ensopa. É uma chatice quando a cama ensopa. Gosto quando a chuva vem mais tarde. Aí sim. Adormeço profundamente. Alguns homens só sabem o que é o amor até a previsão dar chuva. Esses são loucos. Eu sou louco. Mas sou diferente. Sou louco por ti. Por isso e pelo teu amor por mim. Tenho de subtrair-te. Tenho de subtrair-te do meu pensamento. Sim, tenho de subtrair-te do meu pensamento. Vou promover-te a meu intelecto. Passas a dominar o meu pensamento.


Escrito em 2008,

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sem Justificações

Decidi criar este Blog, para aqui expor grande parte da minha vida artística. O meu interesse é que as pessoas vejam as minhas criações profissionais ou não profissionais, e que através de mim possam conhecer outras dimensões da vida. Porei neste Blog criado a 15-01-10, textos escritos por mim, textos que me fazem pensar ( sejam eles mesmos, meus ou de outrem), com a delicada atenção de assinar com o nome do autor. Com isto espero que se note uma das minhas formas de auto-afirmação, ou seja, independentemente da minha escrita que não obedece a muitas regras, porque eu (o autor), assim o exijo, não nego críticas tanto a nível construtivo como destrutivo. Esta será a minha maneira de mostrar a peça de teatro que a vida é, e como muitas personagens conseguem representar tão bem os seus papéis (níveis sociais)... Se eu pudesse ficar a escrever mais um pouco para esta minha primeira postagem, com todo gosto o faria... mas ( sem justificações).