sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CHOVE


25.SET.2012

Lá fora chove.
Cá dentro – sala de ensaios – cozinha-se.
Trabalho de actor.
Sala gélida, condições mínimas.
Luz do dia escassa, mas aproveitada, para poupar
Nos gastos da electricidade.

Os actores, no calor da cena, mentem,
Interpretando personagens realistas.
Naturalismo ao rubro.
Alguém saberá – lá fora – que cá dentro
Estamos a cozinhar coisas novas?
Hão-de saber em breve.
Havemos de ter sala cheia?
Preenchida, e não vazia?

Tenho frio.
Preciso do calor da cena.
Cá dentro chovem pingos, vindos do piso superior.

O Outono veio e trouxe consigo
Um Inverno que ainda está para vir.
Virá zangado o Inverno que vem.
Sente-se no prenúncio outonal.

Anseio, desesperadamente, por ver a coloração
Das folhas num dia de sol.
As folhas vão cair, brevemente.
Há folhas no chão já.

Tenho fome.
Diz o meu estômago, queixando-se,
Numa onomatopeia estranha.
O meu estômago, vazio, tem as cores
Das folhas do Outono.